I
O chamado
Quando souberam que o mundo estava perdido, um círculo de magos fez a única coisa que ainda podia ser feita: chamou uma vida de fora dele.
Do outro lado, o tempo não corria como deste. Eles mantiveram a porta aberta por anos, enquanto alguma coisa golpeava as pedras do círculo.
II
A inscrição
Ao viajante: a porta permaneceu aberta. Nenhum de nós permaneceu vivo.
Quem escreveu sabia que não estaria lá para ler a resposta.
III
O despertar
Ele acorda no meio das pedras, entre os corpos de quem o chamou. Não lembra o próprio nome, nem de onde veio. Sabe uma coisa só: precisa sobreviver.
Ninguém o recebe. Ninguém diz o que ele veio fazer.
IV
A floresta
O mundo não acabou de uma vez. Ele foi parando. Árvores secaram de pé, campos esqueceram a colheita, a água deixou de ter gosto.
Mas não tudo. Entre as raízes mortas ainda brota uma folha verde, teimosa, como se alguma coisa esperasse.
V
Os mortos
Parecem monstros vindos da floresta. Depois um deles veste uma farda. Outro ainda carrega a enxada com que trabalhava.
São frios ao toque. O sangue deles é negro. E nenhum escolheu estar ali: os monstros eram este mundo.
VI
Morvhaloth
Houve uma guerra contra os mortos, e ela não podia ser vencida: cada soldado que caía se levantava do outro lado.
A guerra acabou. Um nome ficou. Ninguém sabe onde está quem a venceu, nem por que lutou.
VII
Ainda não
Morrer aqui não é o fim que deveria ser. Na escuridão, ao lado de uma árvore seca, uma voz fraca, quase apagada, diz só duas palavras.
Você ainda não.
O soldado
O cão
O cervo
O faminto
A árvore
A sombra